A música popular é tão presente em nosso cotidiano, que na maioria das vezes nos passam desapercebidas maiores reflexões sobre seus processos de formação, influências, personagens ou territórios de atuação. Quando falamos de música popular brasileira, inevitavelmente devemos reconhecer que esta música é formada sobretudo por elementos provenientes da cultura afro-diaspórica. A cultura da população negra africana que foi retirada das suas casas e lugares de origem para serem escravizadas em outros continentes. E mesmo assim, em condições desfavoráveis, tiveram a grandeza de proporcionar tanta riqueza artística e cultural. É importante, portanto, compreender o contexto brasileiro. Haviam aqui os povos originários, os indígenas. Chegaram aqui o povo branco, vindo da Europa. E foram trazidos para cá os negros, vindos da África. Isto irá formar o caldeirão étnico e cultural do Brasil. Cada um destes povos dará sua contribuição para a formação cultural brasileira. A partir deles ocorrerão diversos encontros e cruzamentos, culturais e artísticos, que darão forma à nossa cultura, aos nossos jeitos de ser, e à nossa música.
O contexto escravocrata revela a dinâmica de uma população que foi retirada da sua terra, seu país, e separada das suas famílias. Esta população perdeu tudo para ser escravizada. Contudo, mesmo assim, não perdeu sua alma e religiosidade. Seus cantos e danças aconteciam em momentos de convívio social, momentos possíveis para a realização das suas práticas religiosas. Eram momentos de encontro consigo mesmos, momentos em que poderiam re-existir. Seus Batuques foram pouco a pouco recebendo o contato e interação com o povo branco, iniciando os tantos encontros e cruzamentos que se tornariam característicos da cultura brasileira. A dança do Lundu receberá a influência e incorporação de elementos europeus, como o estalar de dedos com os braços arqueados por sobre a cabeça, elemento coreográfico proveniente do fandango espanhol. Também irá incorporar o uso da viola em seu acompanhamento musical. Contudo não perderá seu aspecto sensual ou o movimento da umbigada, que consiste no momento em que um dançarino presente no meio da roda convida outra pessoa para a dança através de um leve toque entre umbigos. O importante aqui, é perceber que a cultura afro-diaspórica é uma cultura que dança. Uma cultura que vê o corpo com naturalidade e expressão. Um corpo que vibra, que se movimenta, que pulsa, que dança de uma forma que desloca os sentidos, que quebra as lógicas. Isto acontece porque na cultura afro-diaspórica dançar é uma forma sagrada de conexão com o divino. Já na cultura branca cristã as concepções são outras. Quando o Império Romano cai em 476 D.C, a igreja teve o papel de unificar um continente despedaçado, e assim o fez por meio de uma unificação espiritual. Para isso teve que estabelecer seu rito de conexão com o divino num formato que se diferenciasse dos ritos pagãos praticados naquele período. A igreja optou pela não incorporação da dança em seu rito de celebração, consequentemente pela não incorporação do corpo, e consequentemente, com qualquer mensagem subliminar que pudesse sugerir, sob sua visão, alguma sexualidade. É importante ressaltar que cultura afro-diaspórica opera numa outra lógica. Nela, não há o conceito de pecado, mas sim, um conceito de livre consciência. Isto estabelece uma dinâmica de diferenças de visão entre duas culturas distintas. Uma aprisiona o corpo, outra propõe a liberdade do corpo. Na cultura afro-diaspórica o corpo fala, o corpo sente, vibra e conta a sua história. Apresenta a sua verdade. O som vem do corpo, o som se manifesta através do corpo. Estes aspectos formarão uma base essencial para que possamos compreender a formação da música popular brasileira através de seus artistas negros.
A dança do Lundu dará origem ao Lundu-Canção. Seu acompanhamento musical regido por palmas e canto, no qual um refrão é tantas vezes repetido, ganhará com o passar do tempo novas estrofes. Ela verá aos poucos a criação de uma música que se descola da dança, mas que não se desvincula das suas origens, mantendo em sua musicalidade a presença desta vibração.
No Choro, a relação com a dança possui papel fundamental no momento da sua constituição. O Choro nasce primeiramente como uma forma de acompanhar as danças importadas da Europa que chegaram no Brasil após a vinda da família Real. O grande sucesso da época foi a Polca, dança que seguia a inovação trazida pela Valsa, ou seja, ambas eram danças de par enlaçado. A Valsa trouxe a novidade do dançar a dois, porém ainda de um modo cortês. Já a Polca, acrescentava alguns pulinhos em sua coreografia, visto que se tratava de outra música, e consequentemente de outra dança. Primeiramente dançada em ambientes familiares e residenciais, passou a ser dançada também nos bailes do bairro Cidade Nova no Rio de Janeiro. Zona habitada majoritariamente pela população negra da cidade. Era uma área populosa, próxima ao porto, local onde se encontrava divertimento barato, e até, com certa má fama. Os jeitos de dançar a Polca foram se modificando, ficando mais lascivos. Além dos corpos unidos, havia agora um entrelaçamento das pernas, e vários movimentos de requebros que geravam passos como o parafuso, a cobrinha ou o corta-capim. Estes novos jeitos de dançar deram origem à dança do Maxixe, que por sua vez, tornou-se conhecida como a primeira dança urbana brasileira. O fato é que este novo jeito de dançar exigiu um novo tipo de acompanhamento musical. Os requebros dos dançarinos deram origem a requebros musicais, que deram origem à música do Maxixe, que deu origem à música do Choro.
O Samba terá sua construção a partir desse mesmo tipo de dinâmica. O Samba nasce dentro dos terreiros de candomblé. Nasce num território afro-diaspórico por excelência, em que se dança de forma livre, conectada ao divino, num processo de união entre música, corpo, dança, profano e sagrado. É primeiramente associado a um modo de expressão baiano, à dança e música trazida pelas tias baianas mães de santo, da Bahia para o Rio de Janeiro. Sua formatação, na então capital federal, o levará a extrair a música produzida nos terreiros para a prensagem de discos da industria fonográfica. Passará ainda por uma nova formatação que o constituirá no samba moderno, urbano e carioca, processo ocorrido em conjunto à constituição das Escolas de Samba. Adquire novos parâmetros rítmicos que fornecerão o acompanhamento musical adequado à ação do cortejo e desfile das Escolas de Samba.
Para compreendermos a música popular brasileira, necessitaremos inevitavelmente compreender seus processos, contextos políticos e sociais. Se a música de concerto é essencialmente branca e europeia, a música popular brasileira é nitidamente afro-brasileira. Se a escravidão gerou a maior cicatriz que este país poderia ter, ainda assim, foi a população afro-diaspórica que moldou através da sua riqueza cultural, muito dos jeitos de ser, dançar e cantar do Brasil. Cabe a nós compreender. Cabe a nós simplesmente ser e fluir.