Toda travessia possui inevitavelmente um ponto de partida e um ponto de chegada, porém o resultado do deslocamento efetuado, a mudança do local de origem para outro diferente do anterior, nem sempre é o que mais importa, muitas vezes o objetivo de uma travessia reside justamente na transformação que ela é capaz de promover durante o percurso que se realiza. Seja de ordem prática ou espiritual, efetivadas por nós ou apenas passivamente aceitas, o fato é que as travessias que cruzamos em nossas vidas constantemente nos modificam, constroem e reconstroem, nos tornam diferentes do que fomos e prospectam melhoras contínuas.
Neste ano o compositor e intérprete Milton Nascimento completa 50 anos de carreira, percurso de tempo no qual variadas travessias podem ser percebidas em sua obra, que por sua vez são fruto de outras tantas vividas por ele, pelo país ou pelos que o rodeiam. Absorvidas pelo artista, tais travessias são retratadas no universo das canções e a partir de então iniciam um novo percurso que gerará outras transformações àqueles que com elas se identificarem.
Na voz de Milton, o amor costuma revelar todas as suas polaridades e faces, muitas vezes opostas são ao mesmo tempo tão próximas, e que quando pendem aos horizontes mais tristes manifestam o desconforto vivido pela transformação de um sentimento que se desejava feliz, mas que por razões próprias já não é mais. Neste momento afloram frustrações por uma situação de certa forma inesperada, mas que a partir de então exige uma outra transformação, incita uma nova travessia que já não visa o local de origem anterior, porque este não mais existe, necessita-se portanto de um reinício queinevitavelmente levará consigo as marcas de uma lembrança triste.
Milton impele a necessidade de mudanças, combate opressões e sofrimentos a que estejamos sucetíveis, e o faz sem medo. Em muitos momentos sua obra aborda ambientes político sociais indesejados, que em períodos ditatoriais disseminaram-se no continente, exigindo união e luta por parte daqueles que não os aceitavam. Contudo, a obra de Milton não contrapõe sentimentos e ideias utilizando dos mesmos recursos rudes de tais opressores, seus instrumentos são outros, sua forma de ação é diferente, opera mudanças sem armas na mão, seu ponto de partida é o coração, local onde efetivamente as grandes revoluções acontecem.
O foco de sua obra são as pessoas e a beleza que nelas existe, suas capacidades de transformar tudo para melhor. Ao descrever o ato do trabalho, o compositor narra sobretudo a maravilha do processo, a ação daqueles que o realizam e que serão recompensados em seu esforço com a finalização da obra a que se dedicaram. Quando evoca lembranças de um determinado tempo, o faz sem nostalgia pois apenas celebra aqueles que o constituíram e deram vida a tais cenários, e que não a toa ficaram guardados em seu coração pelo tanto que contribuíram no processo da construção do seu ser. A religiosidade aparece em sua obra nunca sob um ponto de vista institucional, mas a partir das pessoas que a praticam, da fé que contêm e do papel transformador que tal ato possui. Milton transpõe em suas canções a força que há nisto, o fato dessas pessoas alimentarem dentro de si um sentimento que quando posto em prática, manifestado e louvado em grupo é capaz de transformar tanto aqueles que louvam quanto os que apenas observam.
Em Milton, o compositor e intérprete vivem unidos, as travessias percebidas em sua obra apresentam-se com simplicidade e despojamento, sempre permeadas por sua voz de timbre único e inconfundível, da qual o encantamento proporcionado nos é transformador e indicativo das nossas próprias travessias que a partir do contato com sua obra teremos.
Quando Elis disse que “se Deus cantasse , seria com a voz do Milton”, certamente o fez com o objetivo de elogiá-lo, porém podemos considerar que ela realmente estivesse certa, e se assim o for, sorte a nossa. Ouçamos Milton, e “… nada será como antes amanhã…”