Hendrix e o Canto Gregoriano

O dia a dia entre Apolo e Dionísio

O isolamento social experienciado em 2020 proporcionou, ao menos em seus primeiros momentos, uma drástica redução de poluição sonora ao nosso redor. A diminuição efetiva da circulação de pessoas pelas ruas possibilitou que o panorama auditivo das cidades também mudasse, e com isso, alterou dentre tantas coisas, a relação de controle sobre a dinâmica entre ruído e silêncio que permeia nossas vidas. Dinâmica implícita e nem sempre controlável, mas que num certo sentido pode ser amenizada através do estabelecimento de um contraponto que nos ilude certo domínio sobre ela. Ruídos externos versus silêncio interno. Confusões de outrem contrastantes à nossa tranquilidade pessoal, e vice-versa. O fato é que no momento quando o silêncio tornou-se protagonista do mundo exterior restaram basicamente os ruídos internos. Em horas como essa a fuga ou enfrentamento se dá na maioria das vezes através da Arte, o que gera perguntas como: O que buscamos nela? Como se dá esta relação? Permitimos que a Arte nos invada?

A história revela, por exemplo, que na Grécia Antiga havia diferença entre as músicas dedicadas para Apolo, daquelas oferecidas a Dionísio, começando pela distinção de sonoridades, o tanger das cordas da lira (harpa) apolínea contrastante ao ruidoso som do aulos (instrumento de sopro) dionisíaco. Dualidade advinda dos aspectos inerentes a cada um dos deuses.

Se Apolo representa as forças da luz e da razão, sendo ligado a ritos de purificação; Dionísio desempenha o êxtase das emoções que busca fusão com o divino através da transcendência. Duas formas de contato com a Arte, sendo que uma delas seria rechaçada pelo cristianismo.

O processo que estabelece o Canto Gregoriano como pedra fundamental do rito cristão, e por conseguinte de toda música ocidental, é parte de um esforço maior feito pela igreja, que necessitou diferenciar suas práticas daquelas realizadas entre os povos pagãos. No momento de queda e ruína do Império Romano coube à Igreja o papel de agente unificador de um mundo destroçado. Porém, a realização desta tarefa não haveria de acontecer com os mesmos utensílios daqueles Bárbaros que produziram os escombros sobre os quais agora se pisava. O cristianismo era portanto purificador.

A sonoridade vocal e monódica do Canto Gregoriano estabelecia-se desprovida até mesmo dos “ruídos” presentes nos quartos de tom dos cantos cristãos que lhe deram origem, como o Canto Bizantino e o Canto Moçárabe, e que por sua vez eram influenciados pela concepção musical dos povos do oriente. Há neste processo a consequente exclusão de toda música associada ao ritmo, à dança e aos instrumentos musicais. Há uma exclusão das forças pagãs dionisíacas, o que portanto, gera também uma exclusão da transcendência possível através do corpo e sexualidade. O protagonismo da igreja cristã em terras europeias e americanas faz parecer muitas vezes que o caminho por ela estabelecido configura-se como o único possível.

O que de certa forma aconteceu no percurso da música ocidental, que entre idas e vindas do seu desenvolvimento incorporaria ritmo e ruído apenas no século XX, através das composições de Stravinsky e Schoenberg. “Sagração da Primavera” [1913] de Stravinsky é um balé de explosão orquestral rítmica e sonora, que não à toa narra um rito sacrificial. Prefigura, mesmo que indiretamente, as explosões elétricas e catárticas de Jimi Hendrix, mas antes disso ainda haveria os Beatles.

No campo da música popular, o rock apresenta na segunda metade do século XX uma relação de êxtase entre palco e plateia. É música jovem. Música de contestação. Na década de 60 seu público é formado por uma geração pós segunda guerra que busca a liberação pessoal. É a geração do movimento hippie e da liberação sexual. Os Beatles representam nesse contexto não só uma revolução musical, mas também uma revolução de costumes. O frenesi provocado na plateia a cada aparição do quarteto atinge decibéis até então desconhecidos. Sua apresentação no Shea Stadium de Nova York em 1965 inaugura a realização de shows de rock em estádios abertos. 

Mas, se do ponto de vista musical os Beatles são pólvora, Jimi Hendrix é o próprio fogo em si. A guitarra elétrica em suas mãos atualiza forças dionisíacas incorporando ruídos e distorções transpostas em massa sonora que atravessa, consome e incendeia seu corpo entregue à transmutação de desejos e pulsões, sonhos e angústias em favor da música. Jimi Hendrix é a força sacrificial do som em estado puro e selvagem, ou simplesmente natural. 

Quando anos mais tarde Tom Morello incorpora em seus solos instrumentais sons gerados a partir do cabo elétrico ligado a sua guitarra, inevitavelmente presta um tributo a Hendrix. Porém, mais do que isso, seus “ruídos” individuais serão potencializados ao contexto geral da banda “Rage Against The Machine” que incorpora a força sacrificial da música transmutando-a em protesto político através de letras verborrágicas que questionam o poder estabelecido por classes dominantes. Som, ruído, sacrifício e protesto. Música expelida numa fala ruidosa própria daqueles que conhecem a vida no que ela tem de real e crua. Música e corpo dispostos à transcendência que extrai venenos e busca a cura.

Em tempos pandêmicos cujo enfrentamento se dá no espelho frente a frente com nós mesmos, ficam então as perguntas: Arte de purificação ou êxtase? Silêncio ou ruído? Contemplação ou sacrifício? Caminhos existem, basta apenas escolher.

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