O Milagre de Santa Luzia

Gaitas e Sanfonas pelo Brasil

A imagem de Dominguinhos trazendo sua música por uma estrada do interior do Brasil é altamente significativa para a música brasileira, tanto para quem a aprecia como para aqueles que a produzem. Assim começa “O Milagre de Santa Luzia” e isto nos diz muito do que está por vir, Dominguinhos nos conduzirá por diversos interiores do país tendo como direção o Brasil que incorpora e permanentemente se encanta a este instrumento já tão nosso: a sanfona, a gaita, o acordeon.

Destes interiores surgirão muitos outros sanfoneiros e gaiteiros, e com eles as diversas sonoridades características de cada região. Este é um dos muitos pontos positivos do filme, somos conduzidos a cada uma destas regiões através de suas paisagens, vegetações e temperaturas, mas também via seus habitantes que com suas feições e olhares (que trazem dentro de si tudo o que já viveram e o que ainda anseiam) nos levam àquelas paisagens interiores de cada um, de onde a música surge e das quais é indissociável, e que inevitavelmente se farão presentes no momento em que é produzida. Passeamos assim pela vegetação árida do Nordeste, acompanhamos o vôo de um casal de araras azuis no Pantanal, sentimos o vento frio presente nos campos gaúchos. Sob o acompanhamento de cachaça, vinho ou chimarrão, ao pé do fogo de chão ou na beira do rio muitos ritmos se apresentam e então xotes, baiões, chamamés, bugios e vanerões embalam esta viagem por um Brasil que se descobre a cada instante. Quando chega a São Paulo o percurso conjuga as diversas identidades sonoras que a sanfona/gaita absorveu e construiu por onde se fixou (ou não), sejam sonoridades deste ou dos muitos países que aqui chegaram e contribuíram com suas culturas no constante e dinâmico processo aglutinador brasileiro, que não é um privilégio da cidade de São Paulo, mas que nela se constrói de tal forma a permitir-lhe uma não-identidade que comporta todas as outras.

Destacam-se no filme a música de Gilberto Monteiro, gaiteiro missioneiro do Rio Grande do Sul, compositor de chamamés como o belíssimo “Pra ti Guria”. Também as histórias de Pinto do Acordeon, ilustrativas das inúmeras e diversas histórias que ocorrem por onde uma sanfona passa e que se pode acreditar, nem todas acabam tão bem como a que ele nos conta.

São muitas as homenagens feitas em “O Milagre de Santa Luzia”, a primeira delas à Luiz Gonzaga associando o nome do filme à coincidência entre o dia de seu nascimento e o de Santa Luzia, fazendo que tal como um milagre o Rei do Baião paire e abençoe a todos os outros sanfoneiros seus seguidores. As presenças de Mário Zan e Sivuca, em suas últimas gravações em vida, associadas à importância de ambos para a história do instrumento não são menos iluminadas. Por último, o filme volta ao início trazendo Dominguinhos por uma estrada do interior do Brasil, agora não mais como um condutor, mas como um personagem que revela a si próprio, sendo ele como tantos outros um discípulo de Gonzagão, porém o mais importante. Sua história de vida reflete a sensibilidade de alma, traduzida tanto em lágrimas quanto em música.

Ao homenagear estes sanfoneiros e gaiteiros “O Milagre de Santa Luzia” homenageia tantos outros pertencentes a este Brasil puro e muitas vezes escondido, que sem a menor dúvida vale a pena conhecer.

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Proposta Cultural realizada com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, pela Fundação Catarinense de Cultura [FCC], por meio do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2024