A arte não só imita a vida, como também é capaz de reinventá-la buscando conexão a aspectos por vezes esquecidos, mas que ao serem revividos criam novos mundos e possibilidades. Num mundo permeado por egos, guerras, crise climática, feminicídios e escândalos sexuais, a arte torna-se o refúgio necessário para o encontro da humanidade com suas alegrias possíveis, alimento à saúde mental, e respiro num planeta já quase sem árvores. A arte possibilita a construção de novos sentidos, mesmo que ainda sejam aqueles já conhecidos por nos manterem ligados ao cordão umbilical que alimenta nossa humanidade. Assim, arte, tempo e território estabelecem diálogos passíveis de luminosidade e paz, mas que, quando não observados atentamente, correm o risco de percorrerem caminhos permeados por sombras e ódio. Vivemos uma época em que poderes políticos pairam mais uma vez nas mãos de certos senhores escravistas, que embora disfarçados pelo falso empreendedorismo moderno, ainda assim, não curaram seus traumas por deficiências fálicas, e que, pelo contrário, os transformaram em condutas e ações opressivas e xenófobas. Uma das formas de combate a esse contexto patriarcal consiste no reconhecimento do protagonismo feminino na arte, sobretudo aquele formado por uma latinidade que pulsa, recria e dá esperança à vida.
O anúncio da cantora colombiana Shakira como atração do Todo Mundo no Rio 2026, show com acesso livre e gratuito, nas areias da praia de Copacabana na cidade do Rio de Janeiro, não significa uma simples escolha por esta ou aquela artista da música pop mundial, mas sim, uma escolha pelo que ela representa, e que por si só potencializa em termos de esperança num mundo permeado por tantas doses de desespero. A artista colombiana cuja trajetória percorre os anos finais do século XX até a atualidade do século XXI apresenta a latinidade como sua marca principal. Ela traz consigo a formação cultural de um continente que canta, dança, vibra e pulsa como forma de conexão com a vida, esteja ela num plano físico ou espiritual. Continente assim estabelecido pelas raízes de seus povos originários, da mesma forma que pelo encontro com a riqueza da cultura afro-diáspórica.
Se os anos anteriores trouxeram a Copacabana o encontro com artistas que celebram a diversidade humana e artística, e portanto a vivência de um mundo saudável, orgânico, respeitoso e naturalmente feliz; Shakira representa a possibilidade de um encontro ritual e efervescente, permeado de sensualidade e tempero latino. Um encontro com vida conectada a alma, celebrada de forma coletiva e acolhedora, esperançosa por união, paz e dias melhores.